Parte 3 de 3 · Porque é que a mudança não pode esperar

Construir a saída antes de precisar dela.

As regras foram escritas para identificadores baratos. Desde então, os endereços passaram a fazer parte do funcionamento de empresas, serviços públicos e países inteiros, enquanto as instituições que mantêm os seus registos estão sob pressão e as suas regras estão a ser reescritas. Uma saída concebida com calma custa pouco. Uma saída improvisada numa crise é paga pelas redes e pelas pessoas que delas dependem.

Síntese das Notas 1–74, dezembro de 2025 – setembro de 20267 min de leitura

Em números

666 624
Endereços IPv4 vendidos no processo de insolvência da Nortel, o momento em que os endereços se tornaram ativos. Nota 65
32 877 USD
Juros sobre 2 milhões de USD imobilizados durante sessenta dias, à taxa de 10%: um exemplo do custo dos atrasos. Nota 74
2033
Ano até ao qual prevejo que um registo distribuído terá substituído as entidades de registo na função de registo da Internet. Nota 43

A versão breve

  1. Os endereços tornaram-se capital, mas as regras continuam a tratá-los como identificadores gratuitos.
  2. Cada ano de dependência de uma única entidade que controla o acesso aumenta o custo de uma mudança forçada.
  3. A pressão já é visível, e as regras de reconhecimento das entidades de registo estão a ser reescritas agora.
  4. A sucessão tem de ser preparada e testada antecipadamente, e há trabalho a começar este ano.

O mundo para o qual as regras foram escritas já não existe

Quando as entidades de registo foram criadas, os endereços eram abundantes e baratos, e uma entidade de registo podia assemelhar-se a um livro de endereços. Esse mundo acabou quando se esgotou a oferta gratuita de IPv4. O ponto de viragem chegou quando a Nortel entrou em insolvência e os seus 666 624 endereços IPv4 foram vendidos à Microsoft como ativos no âmbito do processo. Desde então, os endereços tornaram-se transferíveis, suscetíveis de financiamento, objeto de aluguer, de litígios e de sanções, e integram redes em funcionamento.

A linguagem das regras não acompanhou essa mudança. Regras que eram inofensivas para identificadores gratuitos atuam agora sobre algo de valor, e cada restrição tem um preço: compradores, financiadores, locatários e seguradoras descontam valor aos endereços cujo futuro depende do poder discricionário de uma entidade de registo. Os custos visíveis são as taxas, a burocracia e os atrasos. Os maiores ficam ocultos: capital que não pode circular, garantias que valem menos, investimentos que nunca se fazem.

“No momento em que o IPv4 se tornou escasso, a antiga linguagem do registo deixou de ser inofensiva.”

Nota 71 · O Espelho da Política

Cada ano de dependência aumenta o preço da saída

Um endereço não é apenas um número na lista de uma entidade de registo. As firewalls e as listas de endereços autorizados dos clientes, os sistemas de pagamento, as implementações na nuvem, os contratos e anos de configurações de segurança são construídos em torno dele. Quanto mais tempo uma rede depender de uma única entidade que controla o acesso, mais tudo isto se acumula e mais custa uma mudança forçada: a renumeração afeta tudo o que aprendeu a confiar nesse endereço.

O atraso também tem um preço. Suponhamos que um operador contraiu um empréstimo de 2 milhões de USD para uma compra e que a análise da entidade de registo acrescenta sessenta dias: a 10% ao ano, são cerca de 32 877 USD só em juros, antes de se perder um único cliente. O valor é um exemplo, não uma perda medida, mas o mecanismo é real, e uma aprovação que acaba por chegar não reembolsa um custo já pago.

“Um número baixo de recusas não mede o custo do processo.”

Nota 74 · Base da necessidade e pré-aprovação — o veto dos RIR às transferências de IPv4

A pressão já é visível

As instituições não são suficientemente estáveis para se adiar a questão. A entidade de registo de África passou anos em tribunal, ficou sem um conselho de administração com quórum a partir de 2022 e foi colocada sob a gestão de um administrador judicial nomeado pelo tribunal; o seu conselho de administração recém-eleito ratificou depois uma política que mantém os endereços dentro da região.

Ao mesmo tempo, as regras de reconhecimento das entidades de registo estão a ser reescritas. A ICANN publicou uma segunda versão preliminar de um RIR Governance Document, que substituiria o ICP-2, a política ao abrigo da qual as entidades de registo são reconhecidas, e estabeleceria novas regras para o seu funcionamento e para a retirada desse reconhecimento. Saber se as novas regras darão às redes uma verdadeira saída ou se cristalizarão a estrutura atual será determinante para as próximas décadas.

O consentimento também se está a desgastar. A participação nas eleições das entidades de registo é baixa, os operadores já tratam os seus endereços como ativos, seja qual for a designação usada nas regras, e as Nações Unidas tornaram permanente o seu Fórum de Governação da Internet sem tocar em nenhum dos mecanismos que efetivamente controlam as redes. Um sistema que assenta na cooperação voluntária raramente colapsa num só dia. Vai perdendo a confiança de quem gere as redes, uma decisão de cada vez.

“Um sistema como este não precisa de ser imediatamente derrubado para começar a morrer.”

Nota 60 · Sobre como a governação densa destruiu a obscuridade de que precisava para sobreviver

O que acontece se nada mudar

O percurso é previsível. Mais litígios passarão das salas onde se discutem políticas para os tribunais, aos quais será pedido que congelem contas, nomeiem administradores judiciais e decidam quem pode agir em nome de uma entidade de registo. Os Estados deixarão de tratar as entidades de registo como associações técnicas inofensivas. Os operadores contornarão a autoridade dessas entidades, apoiando-se em contratos, transferências respaldadas pelos tribunais e nos seus próprios registos. Os organismos mundiais acima das entidades de registo sentirão a tentação de centralizar, e os governos, de nacionalizar, podendo daí resultar entidades de registo em conflito e pressão política sobre o encaminhamento.

A rutura também pode não ser gradual. Se uma entidade de registo puder agir contra uma grande rede ou contra o espaço de endereços de um país quase sem custos para si própria, uma única decisão poderá dividir o registo único e partilhado de que a Internet depende, deixando os sistemas de segurança e os registos de transferências a apontar para versões diferentes da realidade. Depois disso, restabelecer um registo único seria quase impossível.

“A Internet não falha apenas quando os pacotes deixam de circular.”

Nota 65 · Primazia do Código em Funcionamento: a correção necessária para preservar a conceção original da Internet

A sucessão tem de ser preparada antes de ser necessária

A continuidade que, com razão, preocupa toda a gente é a continuidade de uma função: números únicos, registos exatos, serviços de diretório e de segurança, e redes em funcionamento. Não é a continuidade do poder de uma instituição em particular. Quanto mais crítica for a função, menos deverá depender da sobrevivência ou da boa vontade de uma única organização.

Esse tipo de continuidade não se improvisa numa crise. Só o sistema de segurança envolve chaves, certificados, repositórios e a confiança que outras redes depositam neles; transferi-lo em segurança exige um plano, ensaios e condições objetivas de ativação acordadas de antemão. A transição tem de começar com antecedência suficiente para que a rede sobreviva à cura.

“A continuidade do registo é necessária. A imortalidade institucional não é.”

Nota 70 · A falácia da continuidade do registo — proteger o livro-razão, não o guardião

O que se pode fazer agora

Para a AFRINIC, propus um calendário: suspensão imediata das revogações, das recuperações de endereços, das recusas de transferência e das interferências nos serviços de segurança ou de DNS inverso por motivos não técnicos; registo de transferências segundo critérios objetivos e fim das proibições de exportação de endereços da região no prazo de 120 dias; conceção de mecanismos de portabilidade e de comutação em caso de falha no prazo de 270 dias; reformulação integral do papel da entidade de registo no prazo de um ano; e criação de um órgão independente de revisão no prazo de dezoito meses.

Os operadores não precisam de esperar pelas salas onde se discutem políticas. Podem manter um registo de todas as regras em que se basearam e de todos os atrasos que sofreram, exigir às entidades de registo o cumprimento dos compromissos já assumidos, recorrer ao direito comum quando uma regra lhes causar prejuízo e organizar-se com outros titulares agora, enquanto ainda têm capacidade de pressão. Quem esperar organizar-se-á depois da rutura, em piores condições e a um custo maior.

A minha previsão, formulada em março de 2026, é que, até 2033, um registo distribuído terá substituído as entidades de registo na função de registo da Internet. O rumo importa mais do que a data: construir a saída enquanto ainda há escolha.

“Que continuidade apoia?”

Nota 70 · A falácia da continuidade do registo — proteger o livro-razão, não o guardião

Perguntas dos leitores

O IPv6 não tornará tudo isto irrelevante?

Em entrevistas anteriores, disse que a Internet acabaria por migrar para IPv6. Nas minhas Notas desde janeiro de 2026, defendo que isso não acontecerá em nenhum horizonte temporal relevante. O IPv6 funciona, mas, após mais de vinte e cinco anos de promessas de transição, a maioria dos operadores continua a ter de manter os dois sistemas em paralelo, pagando duas vezes pela mesma receita, e as ligações dos seus clientes continuam a depender do IPv4. Enquanto assim for, saber quem controla o registo IPv4 continua a ser uma questão atual.

Das NotasNota 30Nota 33Nota 46

Uma mudança súbita não é mais arriscada do que esperar?

Sim, e é por isso que defendo uma transição por etapas, não uma rutura. O verdadeiro perigo é o outro tipo de mudança súbita: a que acontece quando uma entidade de registo falha ou se vira contra uma rede e ninguém preparou uma saída. É a preparação que permite uma mudança gradual.

Das NotasNota 43Nota 62Nota 73

Não giro nenhuma rede. Porque é que isto me há de importar?

Porque os serviços que utiliza gerem redes. Hospitais, aeroportos, bancos, escolas e as aplicações do seu telemóvel chegam até si através de redes cujos endereços constam destes registos. Quando um litígio com uma entidade de registo se transforma numa interrupção de serviço ou numa renumeração forçada, esses serviços são os primeiros a sentir os efeitos, e a um hospital pouco importa se a causa foi um nobre processo comunitário.

Das NotasNota 58Nota 69

Porque haveria alguém de acreditar na sua previsão?

Não precisa de acreditar. O argumento a favor de construir uma saída não depende da data. Mesmo que as entidades de registo durassem décadas na sua forma atual, uma rede que possa sair está mais segura, e uma entidade de registo que possa ser substituída comporta-se melhor. A previsão é minha; os riscos constam dos próprios documentos das entidades de registo.

Das NotasNota 43Nota 70

As Notas que fundamentam esta página

Cada secção acima é uma síntese. Estas são as Notas em que o argumento é desenvolvido na íntegra.

  1. Nota 70A falácia da continuidade do registo — proteger o livro-razão, não o guardiãoO que tem de sobreviver à falha de uma instituição e como preparar essa continuidade.
  2. Nota 65Primazia do Código em Funcionamento: a correção necessária para preservar a conceção original da InternetO percurso previsível até à falha se nada mudar.
  3. Nota 71O Espelho da PolíticaComo o IPv4 mudou o sistema e um calendário para a reforma.
  4. Nota 50Sobre quando uma entidade de registo pode destruir sem custo — e por que razão o sistema morre então com elaPorque é que a rutura pode ser súbita, em vez de lenta.
  5. Nota 43Sobre o horizonte de sete anosA minha previsão a sete anos e porque falhou a via gradual.
  6. Nota 60Sobre como a governação densa destruiu a obscuridade de que precisava para sobreviverComo um sistema começa a morrer muito antes de alguém o derrubar.
  7. Nota 74Base da necessidade e pré-aprovação — o veto dos RIR às transferências de IPv4Quanto custa o atraso e o que os operadores podem fazer hoje.
  8. Nota 25Sobre a última tentativa de centralizar a Internet — o projeto de revisão do ICP-2, o poder de implementação e o risco estruturalO que a reformulação prevista das regras das entidades de registo deixaria cristalizado.
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