Libertar o valor oculto do IPv4
Porque estão os proprietários dos endereços IPv4 ausentes das salas onde se decidem as regras que os regem?

As empresas afetadas pelas regras dos registos podem ajudar a defini-las. Lu Heng apela à participação dos seus dirigentes.
O IPv4 é o recurso mais importante para viabilizar serviços na Internet. Um dispositivo ou servidor na nuvem não pode estar ligado à Internet sem um endereço IPv4. Contudo, o preço do IPv4 é fixado como se o seu valor fosse insignificante. Por cerca de 0,30 dólares mensais por IP, viabiliza serviços no valor de aproximadamente 300 dólares por mês por servidor — cerca de 0,1% do valor que torna possível. Em qualquer outro mercado, os recursos essenciais que viabilizam serviços captam uma parte significativa das receitas que permitem gerar: a renda de um espaço comercial no centro de uma cidade corresponde frequentemente a cerca de 30% das receitas de uma loja, porque é a localização que viabiliza o negócio. Seguindo essa lógica, o potencial máximo de valorização do IPv4 é muitíssimo superior ao valor atual.
Mesmo com o seu valor artificialmente limitado, o IPv4 já representa uma parte importante da capitalização bolsista de muitas empresas de telecomunicações. Em alguns casos, o valor implícito dos endereços IPv4 detidos aproxima-se da capitalização bolsista total da empresa ou rivaliza com ela. Uma valorização modesta alteraria significativamente a avaliação das empresas de infraestruturas. O problema não está na economia; está na governação.
O IPv4 está subavaliado porque o mercado é estruturalmente impedido de funcionar como um verdadeiro mercado. As políticas dos RIR fazem três coisas que esmagam a liquidez e a formação de preços: recusam reconhecer a propriedade efetiva, impõem períodos mínimos de detenção que impedem a livre revenda e aplicam «testes de necessidade» em que uma burocracia decide se um comprador é «elegível», mesmo depois de o capital ter sido comprometido. Estas restrições transformam um ativo escasso e valioso num arrendamento parcialmente sujeito a autorização, controlado por cinco pequenas entidades privadas — entidades que, ao abrigo das regras atuais, podem alterar registos de formas capazes de paralisar grandes redes ou até a conectividade de um país. Isto constitui simultaneamente um risco de segurança e um fator de contenção do valor.
Porque persistem estas políticas? Porque a maioria dos verdadeiros decisores — diretores executivos, conselhos de administração, acionistas — está ausente da governação dos RIR. A participação é frequentemente delegada em pessoal técnico, que não tem incentivos para otimizar o valor da empresa ou os direitos sobre os seus ativos. Em consequência, as políticas são moldadas pela dinâmica de um pequeno «clube», em vez de o serem pelos proprietários dos ativos e das empresas afetadas.
O mecanismo para corrigir esta situação já existe: os RIR são organizações de membros. Os proprietários do IPv4 — fornecedores de acesso à Internet, prestadores de serviços na nuvem, empresas de telecomunicações — constituem o eleitorado. A solução é trazer quem efetivamente dirige as empresas para o processo de definição de políticas: eliminar as restrições artificiais às transferências, pôr fim aos testes de necessidade, reconhecer a propriedade e tratar o IPv4 como um ativo transacionável normal, com liquidez real. Uma vez libertada a liquidez, a escassez poderá refletir-se devidamente no preço, e o setor das infraestruturas poderá captar uma parte muito maior do valor que já torna possível.
Este é o ponto central: manter artificialmente baixo o valor do IPv4 significa, em conjunto, manter artificialmente baixo o valor de todo o setor dos fornecedores de acesso à Internet e dos serviços na nuvem. O setor pode aceitar essa contenção — ou recuperar o controlo das regras que a criaram.