Sobre a narrativa fabricada da escassez de IPv4
O IPv4 é escasso se seu preço mal aparece no custo de manter um servidor funcionando?

Um conjunto de endereços disponíveis para alocação vazio é apenas parte do quadro. Lu Heng argumenta que a escassez deve ser avaliada pela capacidade do custo de obtenção de endereços de efetivamente limitar os operadores de redes.
A afirmação de que a escassez de IPv4 é a restrição determinante da Internet moderna é repetida com tanta frequência que se cristalizou em doutrina. Mas, quando examinada à luz da economia básica e da realidade operacional, essa afirmação começa a desmoronar.
A escassez não se define pelo esgotamento administrativo do conjunto de endereços disponíveis em uma entidade de registro.
A escassez se define pela pressão dos preços em relação à utilidade.
Se um recurso é realmente escasso, seu custo precisa limitar de maneira significativa seu uso.
O IPv4 não passa nesse teste.
No mercado global, a locação de um endereço IPv4 normalmente custa cerca de US$ 0,25–0,55 por mês, com médias em torno de US$ 0,40 por endereço por mês.
Isso significa que um endereço IPv4 público custa aproximadamente US$ 5–6 por ano.
Agora compare esse valor com a infraestrutura que efetivamente o utiliza.
O custo dos servidores em nuvem varia muito conforme a carga de trabalho:
• VPS básico: US$ 5–20 por mês
• Servidores de produção típicos: US$ 50–200 por mês
• Cargas corporativas ou de grande porte: US$ 500–2.000 ou mais por mês
Assim, uma faixa intermediária realista de custo operacional para muitos serviços é de US$ 100–500 por mês.
Diante dessa estrutura de custos, o endereço IPv4 necessário para operar a máquina custa muito menos de 1% do sistema.
Algo que representa um erro de arredondamento no conjunto da infraestrutura não pode ser descrito de maneira crível como o recurso que limita a Internet.
Para entender como a narrativa da escassez se torna absurda quando examinada economicamente, considere uma analogia simples.
Se alugar um apartamento no centro de uma grande cidade custasse 0,1% do salário de uma pessoa, nenhum economista descreveria a moradia como escassa. Ela seria considerada abundante em relação à renda.
O IPv4 está exatamente nessa posição.
O sinal de preços não sustenta a alegação de falta.
Ainda assim, a narrativa da escassez persiste.
Por quê?
Porque cumpre uma finalidade institucional.
Ao apresentar o IPv4 como um recurso escasso e esgotado, as instituições de registro podem justificar um controle administrativo extraordinário sobre a camada de registro. Apresentam-se como guardiãs de um recurso global frágil, e não como administradoras de um livro de registros que cada vez mais dá suporte a um mercado funcional.
Essa narrativa também encobre, convenientemente, uma assimetria mais profunda.
Muitos contratos das entidades de registro limitam a responsabilidade institucional a valores simbólicos — às vezes em torno de US$ 100. Isso significa que instituições que exercem autoridade administrativa sobre uma infraestrutura cujo valor agregado chega a bilhões assumem quase nenhuma responsabilidade financeira caso ações discricionárias causem danos.
A história da escassez ajuda a sustentar esse arranjo.
Se o IPv4 é apresentado como frágil e finito, o controle administrativo centralizado parece necessário, e a responsabilização jurídica passa a segundo plano.
Mas, quando os endereços IPv4 são reconhecidos pelo que se tornaram — ativos de capital da infraestrutura, negociados e alugados em mercados globais —, essa lógica se enfraquece.
Os mercados alocam capital escasso.
Os administradores mantêm livros de registros.
Quando administradores exercem autoridade discricionária sobre ativos de capital, assumindo ao mesmo tempo uma responsabilidade quase nula, a narrativa da escassez se torna menos uma observação econômica e mais uma defesa institucional.
Esse enquadramento tem outra consequência.
Se o IPv4 não é realmente escasso em termos econômicos, a principal justificativa para promover o IPv6 se enfraquece drasticamente.
Há décadas, o IPv6 é promovido como substituto inevitável porque a Internet supostamente “ficou sem” endereços. No entanto, a Internet real, em operação, continua funcionando principalmente em IPv4, enquanto os mercados fornecem endereços a um custo irrisório.
Os operadores, portanto, precisam manter uma infraestrutura de pilha dupla, executando IPv4 e IPv6 simultaneamente. Isso cria uma sobrecarga operacional real:
• maior complexidade de roteamento
• mais configurações de firewall
• mais trabalho de diagnóstico e resolução de problemas
• mais esforço de engenharia
Na prática, a Internet vem pagando há anos um imposto de pilha dupla.
Se a escassez de IPv4 é sobretudo administrativa, e não econômica, a justificativa para esse imposto se torna questionável.
A comparação técnica também é menos dramática do que costuma ser apresentada.
O IPv4 usa um espaço de endereçamento de 32 bits. Com tecnologias como a tradução de endereços de rede (NAT), um único endereço IPv4 público pode atender a milhares de dispositivos internos, multiplicando efetivamente a capacidade de endereçamento utilizável para além do espaço bruto de 32 bits.
Enquanto isso, o IPv6 oferece um espaço teórico muito maior, mas as implantações reais costumam alocar redes em blocos /48 ou /56 — muito maiores do que a maioria das redes exige na prática. No cotidiano operacional, a diferença de capacidade de endereçamento utilizável frequentemente se torna menos relevante do que a contagem bruta de bits sugere.
O resultado é que a principal vantagem do IPv6 — a abundância de endereços — perde boa parte de sua força prática quando os endereços IPv4 continuam baratos, negociáveis e amplamente utilizáveis.
A narrativa da escassez, portanto, começa a parecer menos uma necessidade técnica e mais uma propaganda institucional.
Se a escassez de IPv4 deixa de ser uma restrição, a camada de registro já não se dedica a racionar números raros.
Ela se torna o que sempre deveria ter sido:
Um livro de registros neutro para os ativos de infraestrutura utilizados pelas redes.
E, quando essa realidade fica clara, surge a questão fundamental de governança:
A camada de registro da Internet deve ser governada por instituições discricionárias com responsabilidade mínima?
Ou por sistemas transparentes, sujeitos a regras e alinhados à realidade econômica das redes que dependem dela?
Quando examinada à luz dos preços, da engenharia e da economia operacional, a narrativa da escassez se torna cada vez mais difícil de sustentar.
Escassez que não limita o uso não é escassez.
É narrativa.
E as narrativas acabam cedendo à matemática.