Sobre a descentralização do registro global de endereços IP com tecnologia de registro distribuído
O que muda quando a unicidade é garantida por um algoritmo, em vez de uma instituição?

Lu Heng propõe registros que as redes possam verificar em conjunto, sem que uma única instituição detenha a única cópia oficial.
Hoje, a camada mais fundamental da Internet — o registro de endereços IP — continua centralizada nas mãos de cinco Registros Regionais da Internet privados. Cada um mantém um fragmento da base global de registros e opera sob uma única jurisdição nacional. Juntos, consomem centenas de milhões de dólares por ano para manter um sistema que, em termos técnicos, é trivial: uma base de registros cujo tamanho se mede em centenas de megabytes. Essa estrutura introduz burocracia, ineficiência, risco geopolítico e pontos únicos de falha no que se tornou uma infraestrutura global crítica.
Os riscos não são teóricos. Como os RIRs são entidades privadas sujeitas à legislação local, suas decisões podem entrar em conflito com os interesses ou as leis de dezenas de países nas regiões que atendem. Sanções, pressão política, falhas de governança ou até dificuldades financeiras em um único registro podem desencadear interrupções da Internet em escala regional ou nacional. Nos últimos anos, ações de registros chegaram perigosamente perto de interromper o acesso à Internet de centenas de milhões de usuários. O modelo atual pressupõe boa vontade perpétua e governança perfeita de instituições que nunca foram concebidas para administrar ativos dessa dimensão ou importância estratégica.
A tecnologia de registro distribuído oferece uma solução estruturalmente diferente. Em vez de uma única base de dados oficial controlada por uma organização, cada rede manteria seu próprio registro de recursos de numeração, verificável por meios criptográficos e replicado por toda a Internet. A unicidade — o único valor real que os RIRs oferecem — seria garantida por algoritmos, e não por instituições. A resiliência seria inerente ao sistema: nenhuma jurisdição, empresa ou acontecimento político isolado poderia alterar ou apagar o registro global.
Os benefícios são imediatos e concretos. Os processos de registro e transferência, que hoje exigem semanas de intervenção manual, poderiam ser automatizados e concluídos em milissegundos. Os registros seriam permanentes e imutáveis, eliminando o risco existencial de uma decisão de uma entidade de registro destruir a rede ou o negócio de uma empresa. A propriedade seria real: deter o token significaria controlar o endereço, em vez de alugá-lo a critério de um terceiro em outro país.
Essa mudança também permite concretizar uma realidade econômica. Os endereços IPv4 já representam um mercado avaliado em mais de cem bilhões de dólares, mas a liquidez é absurdamente baixa porque a propriedade não é reconhecida. Ao transferir o registro de IP para um registro distribuído, os endereços se tornam ativos plenamente negociáveis, comparáveis a outras commodities. Para as operadoras de telecomunicações, os endereços IP detidos finalmente seriam refletidos de forma adequada nos balanços patrimoniais, com potencial para multiplicar seu valor de mercado. Isso não é especulação; é a correção de uma distorção estrutural.
As preocupações com a regulação estão mal direcionadas. A descentralização não elimina a soberania; ela a restabelece. Os governos mantêm plena autoridade sobre as operadoras dentro de suas fronteiras, aplicando a legislação nacional diretamente, em vez de fazê-lo indiretamente por meio de registros privados estrangeiros. A regulação passa a ser local e efetivamente aplicável, em vez de global, politizada e frágil.
O modelo dos RIRs funcionava quando a Internet era pequena e havia endereços em abundância. Essa era acabou. O esgotamento do IPv4 e o valor gigantesco desses ativos expuseram os limites de uma administração centralizada sem prestação de contas. Continuar remendando esse modelo com mais burocracia ou controle intergovernamental só agrava o problema.
Hoje dispomos de uma tecnologia que não existia quando a Internet foi criada. Se não descentralizarmos seu núcleo, toda descentralização nas camadas superiores — blockchain, Web3, identidade digital — ficará assentada sobre uma base centralizada que pode ser capturada ou comprometida. Levar o registro de endereços IP para um registro distribuído não é uma questão ideológica. É uma necessidade sistêmica para que a Internet permaneça estável, neutra e indivisível pelos próximos cem anos.