Sobre o contra-argumento — e porque é que falha
Qual é o argumento mais forte contra a descentralização, e em que ponto falha?

O que acontece quando uma ligação falha? Lu Heng defende sistemas com outras vias de passagem: redundância, portabilidade e direitos cujo cumprimento pode ser imposto.
Há um contra-argumento sério ao que estou a dizer.
Merece ser exposto com clareza, não caricaturado.
Os seus defensores argumentam que os endereços IP não são capital.
São um recurso operacional partilhado.
Têm de ser atribuídos administrativamente para evitar a especulação, o açambarcamento e a desigualdade.
Na sua perspetiva, os mercados recompensam o dinheiro, e não a conectividade.
Argumentam que a legitimidade vem da «governação comunitária».
Não da eficiência.
Não dos mercados.
A própria participação é a fonte da autoridade, mesmo que os resultados sejam imperfeitos.
Argumentam que a unicidade global e a estabilidade exigem coordenação central.
Um único registo.
Uma única fonte de verdade.
Demasiada descentralização, dizem, traz o risco de fragmentação, abuso e caos no encaminhamento.
Argumentam também que forçar a mudança através dos tribunais e dos mercados acelera o colapso.
Que a pressão deve ser absorvida lentamente.
Que uma rutura abrupta abre caminho à tomada de controlo pelos governos, a sanções ou ao controlo intergovernamental.
Em suma: o diagnóstico pode estar certo, mas o método é perigoso.
Esta é a versão mais forte do seu argumento.
Ainda assim, falha.
A primeira falha é confundirem legitimidade com capacidade de sobrevivência.
A participação aberta não funciona em grande escala quando fica reduzida a um pequeno grupo envelhecido que se escolhe a si próprio.
Um processo pode ser legítimo no papel e, mesmo assim, falhar sob pressão real.
A história é implacável neste ponto.
A segunda falha é a suposição de que a coordenação exige centralização.
Isto é historicamente falso.
A Internet já resolveu a coordenação global sem controlo central na camada de rede.
Nunca explicam porque é que a mesma lógica não pode aplicar-se à camada de recursos quando o risco se torna visível.
A terceira falha é dependerem de uma confiança que a geopolítica já destruiu.
As sanções são reais.
Os congelamentos ordenados pelos tribunais são reais.
A captura por uma jurisdição é real.
O seu modelo exige boa vontade permanente entre Estados que se tratam abertamente como adversários.
Isto não é governação.
É confundir desejos com realidade.
A quarta falha é a ausência de um estado final credível.
A sua resposta à escassez é um comportamento melhor.
Normas melhores.
Mais paciência.
A resposta que se propõe tem de funcionar mesmo quando o comportamento falha.
É aqui que a comparação se torna decisiva.
O modelo deles só funciona quando todos se comportam bem.
O meu funciona quando ninguém o faz.
Eles exigem confiança.
Eu exijo mecanismos.
Eles exigem contenção.
Eu exijo redundância.
Eles exigem consenso.
Eu exijo portabilidade.
Eles exigem alinhamento moral.
Eu exijo direitos cujo cumprimento possa ser imposto.
A história escolhe sempre o segundo conjunto.
Não é uma questão de ideologia.
É uma questão de condicionantes.
As nações não conseguem entender-se umas com as outras.
Mas não se podem dar ao luxo de deixar a Internet falhar.
Qualquer sistema que dependa de confiança permanente entre potências concorrentes acabará por colapsar.
Um sistema concebido em torno de incentivos, direitos e redundância sobreviverá.
É por isso que esta transição é inevitável.
E é por isso que o argumento deles, por mais bem-intencionado que seja, não se sustenta.
Estão a defender um sistema que diz:
«Por favor, não usem o poder.»
Eu estou a descrever um sistema que diz:
«O poder existe; por isso, concebam o sistema tendo-o em conta.»
Só um destes sistemas sobrevive à história.